Friday, October 19, 2012

African Worlds: Lectures on Africa and the Humanities at BYU


Ontem, 18 de outubro, aos 11 horas na sala 238 do HRCB, Ana Caterina Teixera veio para fazer um discurso intitulado “The Missing Protagonists: Revisiting the Role of Cubans in Angola’s Post-Independence Literature”. Ana Caterina é professora de português no MIT e fez seus estudos pós-graduados na Universidade de Brown. Ela tem pesquisado a história lusófona da África, especialmente Angola, e nos explicou quanto a literatura tem a ver com a história, ou a política, de um país. De acordo com as pesquisas dela, Angola atingiu uma identidade distinta de Portugal primeiro na literatura, e depois na realidade political. Angola, a maior de todas as ex-colônias de Portugal, recebeu ajuda de Cuba para conseguir a sua independência. Apesar disso, em algumas obras literárias chaves desta época, nenhuma personagem cubana aparece. Este discurso me deixou com uma ideia de quanto que ainda não conheço no mundo. Abriu a minha visão e me fez compreender o poder que reside na pena. “A pena é mais poderosa do que a espada”. Tem o poder de unir o povo debaixo de uma ideologia. “O que é determinante para a unidade é a ideologia e não a geografia”.

Thursday, October 18, 2012

“Ó poesia sonhei que fosses tudo"


“Ó poesia sonhei que fosses tudo
E eis-me na orla vão abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada”
(Sophia de Mello Breyner Andresen, [sem título], 218).

Eu adoro este poema. O mar é tudo para Sophia de Mello Breyner Andresen. Simboliza tantas coisas—a criação entre elas. Neste poema o mar também simboliza um tipo de abandono. Na orla, a mulher (imagino que é mulher) é deixada entre a beira da terra e da água. “Terra de ninguém é onde eu vivo”, Sophia escreveu em um outro poema. Aqui as circunstâncias têm deixado o narrador em terra de ninguém. As ondas que ela fita vão rolando ‘sem defeito’, perfeitas no seu movimento. E ela, deixada sem rumo, até perde o consolo que a poesia lhe trazia. Para ela, imagino que a poesia dever significar a expressão de emoção forte e a renovação ao expressá-la. Mas, solitária na orla, ‘é como se um poema fosse nada” em comparação com os sentimentos com as quais ela está lutando. Ela também poderia estar dizendo que a poesia é nada em comparação com o mar, eterno e belo.

A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen tem um tipo de nostalgia. Ao ler, quase me parece que eu já li em algum lugar, talvez quando era criança. Eu acho que tenho este sentimento porque ela consegue transmitir tão perfeitamente emoções profundas que são universais na geografia e no tempo. É como se fosse redescobrindo a sua própria natureza nas páginas.

Thursday, October 11, 2012

"A valsa"


"Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena de mim!"

(Casimiro de Abreu, “A valsa”, 128-129)

Adorei a música que se encontra neste poema. A rima constante e versos de três sílabas dá a impressão de realmente estar em uma valsa. Se captura o movimento no poema nos verbos: corrias, fugias, saltavam, voavam, brincavam, tremias, sorrias. Se empregam muitas rimas pobres (palavras da mesma classe gramatical) por causa da quantidade das rimas. É um ritmo feliz e despreocupado, colocado em justaposição com a dor e sofrimento do narrador.

O amante é aparentemente jovem e muito vulnerável à dor da amada mulher inconstante. Ele examina o rosto dela—os olhos, o cabelo, a sorrisa. Em um só instante, Casimiro de Abreu nos conta uma história que todo o mundo reconhece. Falecido aos 21 anos, Casimiro de Abreu tinha “uma perspectiva adolescente [do amor romântico] . . . exprimindo tanto o medo, quanto as fortes paixões” (Frederick G. Williams, Poetas do Brasil, 126). Neste poem, ele captura perfeitamente nos versos a vulnerabilidade que o amor traz, e o medo do amor que não é correspondido.

Thursday, October 4, 2012

"O morcego"


“A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptívelmente em nosso quarto!”
(Augusto dos Anjos, “O morcego”, 214).

A poesia de Augusto dos Anjos pertence à época de Realismo e Naturalismo, que começou em 1881 no Brasil. Ele, conforme as características deste movimento, queria explicar os por quês da vida por meio da ciência. Segundo ele, o comportamento do humano podia ser compreendido só no contexto do ambiente na qual se encontrava e as regras científicas que governavam a mente e os hábitos. Sabendo disso, ficamos mais prontos para entender o soneto “O morcego” por Augusto dos Anjos.

Usando como metáfora um animal (ao qual nós normalmente atribuímos uma natureza fixa), Augusto dos Anjos explica o que é a consciência humana. Como todos os sonetos, tem catorze linhas. É um soneto italiano, pois é composto de 8 linhas, que têm um esquema de rima (neste caso, ABBA BAAB) e 6 mais linhas com outro esquema de rima (CDE CDE). A interpretação e o ponto crucial do poema se econtram nas últimas linhas aqui citadas. À noite, a consciência muitas vezes vem para nos perturbar. Nossos pensamentos mais escuros e desaminadores vêm nos mordendo como este morcego. Ficamos apavorados apenas pelo toque do ‘animal’. E por mais que nós façamos, Augusto de Anjos fala, este animal faz entrada na nossa cabeça. É um comentário da psicologia do homem e como há coisas que ficam além do poder dele para mudar, coisas imutáveis da natureza—assim como o morcego não tem poder para mudar a sua natureza.

Thursday, September 27, 2012

A crônica


Os professores incutem muitas vezes nos alunos (inclusive sem querer) uma falsa idéia de seriedade; uma noção duvidosa de que as coisas sérias são graves, pesadas, e que conseqüentemente a leveza é superficial. Na verdade, se aprende muito quando se diverte, e aqueles traços constitutivos da crônica são um veículo privilegiado para mostrar de modo persuasivo muita coisa que, divertindo, atrai, inspira e faz amadurecer a nossa visão das coisas” (Antonio Candido, “A vida ao rés-do-chão”, 27).

Esta ideia que o cotidiano pode se transformar numa coisa divina e inspiradora me destacou ao aprender sobre o gênero da crônica. Os melhores exemplos desta transformação, ao meu ver, são as crônicas que lemos de Clarice Lispector.

Na crônica “O milagre das folhas”, o narrador conta sobre a experiência de ter uma folha de um árvore cair nos cabelos dela. Quem de nós não teve essa experiência? É uma coisa tão comum que nem pensamos muito no acontecimento. Mas se nos dermos mais atenção, poderiamos ver nesse momento cotidiano uma coincidência tão sublime que é milagre. Acharemos “Deus de uma grande delicadeza”.

O chicle é nossa coisa comum que está para se transformar em “Medo da Eternidade”. O narrador, ainda muito pequena, prova chicles pela primeira vez. Ela fica empolgada ao saber da irmã que esta bala nunca vai se acabar. Mas, ao masticar o chicle, o gosto começa a ficar insosso e ela começa a ter medo da ideia de alguma coisa sempre existindo. Ela deixa cair o chicle e fica aliviada que não tem mais “o peso da eternidade sobre [ela]”.

De duas coisas cotidianas, Clarice Lispector consegue contemplar o divino e a eternidade.

Thursday, September 20, 2012

"Conto (não conto)": Nós e o gorila

“Às vezes, porém, aqui é tão monótono que se imagina ver um vulto que se move por detrás dos arbustos. Alguém que passa, agachado? Um fantasma? Mas como, se há soluços? Por acaso soluçam os fantasmas? Mas o fato é que, de repente, escutam-se (ou se acredita escutar) esses lamentos, uma angústia quase silenciosa.


Ah, já sei: um menino perdido, a chorar de medo. Ou talvez um macaquinho perdido, a chorar de medo. Ah, apenas um macaquinho, vocês respiram aliviados. Mas quem disse que a dor de um macaquinho é mais justa que a dor de um menino?


Mas o que estão a imaginar? Isso aqui é apenas um menino—ou macaquinho—de papel e tinta. E, depois, se fosse de verdade, o menino poderia morrer mordido pela cobra. Ou então matar a cobra e tornar-se um homem. No caso do macaquinho, tornar-se um macacão. Um desses gorilas que batem no peito cabeludo, ameaçando a todos. Talvez porque se recordasse do medo que sentiu da cobra” (Sérgio Sant’Anna, “Conto (não conto)”, 97-98).


Ontem na biblioteca eu ouvi uma mãe explicando para seu filho que não-ficção significava que não era falsa, e a ficção significava que era falsa. Lembro-me de ter aprendido isso na primária, mas depois de uma conversa a respeito deste conto na aula, não acho mais que é bem assim. Neste conto, o narrador nos lembra vez após vez que esta história é apenas uma história fictícia. Mas, ao repetir isto, parece que ele está dizendo que é sim algo mais que apenas um conto. É algo bem real e supremamente verdadeiro.


Nós, ao ler sobre um menino soluçando, sentimos pena dele. Por quê? Se ele é apenas uma personagem no conto—apenas “papel e tinta”? Porque nós também sabemos o que é soluçar num lugar solitário. Este menino é de papel e tinta, mas ele representa muitos meninos, muitas pessoas que são de carne e osso. É a universalidade de sentimento e experiência que nos unifica a pesar do lugar ou do tempo. Nos unifica até com o macaquinho, pois qual de nós não conhece a vulnerabilidade que faz o gorila bater no peito, ameaçando ao mundo, dando a aparência de força, porque lembra bem o medo sentido ao aparecer fraco?

Thursday, September 13, 2012

"O Enfermeiro"


“Como o silêncio acabasse por aterrar-me, abri uma das janelas, para escutar o som do vento, se ventasse. Não ventava. A noite ia tranqüila, as estrelas fulguravam, com a indiferença de pessoas que tiram o chapéu a um enterro que passa, e continuam a falar de outra coisa” (Machado de Assis, “O Enfermeiro”, 51).

Este verão eu estudei as obras de Anton Tchekhov para uma aula na universidade. "O Enfermeiro" me lembrou bastante de um conto dele chamado “Sonhos” em que uma menina de 13 anos trabalha de enfermeira para um bebê. Os empregadores e pais do bebê abusam ela fisicamente. Ela é requerida ficar quase a noite inteira sem dormir para cuidar do filho deles, que chora a noite toda. Ela fica tão cansada e abatida que certa noite, delirante de cansaço, ela vê que é o bebê que a impede de dormir . . . e o sufoca.

Machado de Assis (1839-1908) escreveu durante a  mesma época que Anton Tchekhov (1860-1904). Os dois se encaixam bem no movimento realista. Esta passagem do conto ilustra bem uma característica que eu sempre associava com Tchekhov, isso é, a indiferença da natureza. Procópio, depois de ter esganado o coronel, fica aterrorizado e abre uma janela, querendo escutar o vento para ficar mais calma. Mas a noite está completamente indiferente à sua angústia. Tranquila, ela quase zomba do desespero dele.